segunda-feira, 14 de março de 2011

14 DE MARÇO - DIA DA POESIA











HORAS DE SAUDADE

Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho!

Por onde trilhas — um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...

                                          Castro Alves




POESIA...

A palavra "poesia" tem origem grega e significa "criação". É definida como a arte de escrever em versos, com o poder de modificar a realidade, segundo a percepção do artista.

Antigamente, os poemas eram cantados, acompanhados pela lira, um instrumento musical muito comum na Grécia antiga. Por isso, diz-se que a poesia pertence ao gênero lírico. Hoje, os poemas podem ser divididos em quatro gêneros: épico, didático, dramático e lírico.
As linhas de um poema são os versos. O conjunto desses versos chama-se "estrofe". Os versos podem rimar entre si e obedecer à determinada métrica, que é a contagem das sílabas poéticas de um verso. Os versos mais tradicionais são as redondilhas; a redondilha menor tem cinco sílabas, e a maior com sete; os versos decassílabos, dez; os alexandrinos, doze.
A rima é um recurso que confere musicalidade aos versos, baseando-se na semelhança sonora das palavras do final ou, às vezes, do interior dos versos. Rima, ritmo e métrica são características especiais de um poema e que podem variar, dependendo do movimento literário da época.
No Brasil, os primeiros poemas surgiram junto com o seu descobrimento, pois os jesuítas usavam versos para catequizar os índios.
Depois, surgiram outras formas de poesia, como o barroco (1601-1768), o arcadismo (1768-1836), o romantismo (1836-1870), o parnasianismo (1880-1893), o simbolismo (1893-1902), o pré- modernismo (1902-1922), o Modernismo (1922-1962), até a forma de hoje.
O Dia Nacional da Poesia é comemorado em homenagem ao nascimento de Castro Alves, em 14 de março de 1847. Poeta do romantismo, ele foi um dos maiores nomes da poesia brasileira. Suas obras que mais se destacaram foram: Os escravos (no qual há o seu famoso poema Navio Negreiro) e Espumas flutuantes, cujas características principais são a valorização do amor e a luta por liberdade e justiça. Há outros nomes importantes da poesia brasileira: Alberto de Oliveira, Gonçalves Dias, Raimundo Correia, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e muitos outros.



E hoje, dia 14 de Março de 2011 é também o aniversário do nosso grande poeta Chico Pedrosa, que com sua simplicidade e genialidade, é quem sempre nos presenteia com tesouros como este que segue:

Briga na Procissão

Quando Palmeira das Antas
Pertencia ao Capitão
Bento Justino da Cruz
Nunca faltou diversão:
Vaquejada, cantoria,
Procissão e romaria,
Sexta-feira da paixão.
Na quinta-feira maior,
Dona Maria das Dores
No salão paroquial
Reunia os moradores
E ao lado do Capitão
Fazia a seleção
De atrizes e atores
O papel de cada um
O Capitão que escolhia
A roupa e a maquilagem
Eram com Dona Maria
O resto era discutido,
Aprovado e resolvido
Na sala da sacristia.
Todo ano era um Jesus,
Um Caifaz e um Pilatos
Só não faltavam a cruz,
O verdugo e os maus-tratos
O Cristo daquele ano
Foi o Quincas Beija-Flor
Caifaz foi Cipriano,
Pilatos foi Nicanor.
Duas cordas paralelas
Separavam a multidão
Pra que pudesse entre elas
Caminhar a procissão
Cristo conduzindo a cruz
Foi não foi advertia
Pro centurião perverso
Que com força lhe batia.
Era pra bater maneiro
Mas ele não entendia
Devido a um grande pifão
Que bebeu naquele dia
Do vinho que o capelão
Guardava na sacristia.
Cristo dizia: ôh, rapaz,
vê se bate devagar!
Já estou todo encalombado,
assim não vou aguentar,
tá com a gota pra doer,
ou tu pára de bater
ou a gente vai brigar!
O pior é que o malvado
Fingia que não ouvia
E além de bater com força
Ainda se divertia,
Espiava pra Jesus
Fazia pouco e dizia:
Que Cristo frouxo é você,
que chora na procissão?
Jesus pelo que eu saiba
não era mole assim não.
Eu tô batendo com pena,
tu vai ver o que é bom
na subida da ladeira
da venda de Fenelon.
O couro vai ser dobrado
daqui até o mercado
a cuíca muda o som!
Naquele momento ouviu-se
Um grito na multidão
Era Quincas que com raiva
Sacudia a cruz no chão
E partia feito um maluco
Pra cima de Bastião
Se travaram no tabefe,
Ponta-pé e cabeçada.
Madalena levou queda,
Pilatos levou pancada
Deram um bofete em Caifaz
Que
até hoje não faz
Nem sente gosto de nada.
Desmancharam a procissão,
O cacete foi pesado.
São Tomé levou um tranco
Que ficou desacordado
Deram um cocorote
Na careca de Timóti
Que até hoje é aluado.
Até mesmo São José,
Que não é de confusão
Na ânsia de defender
O filho de criação
Aproveitou a garapa
Pra dar um monte de tapa
Na cara do bom ladrão.
A briga só terminou
Quando o Doutor Delegado,
Interviu e separou:
Cada Santo pro seu lado!
E desde que o mundo se fez,
Foi essa a primeira vez
Que Cristo foi pro xadrez,
Mas não foi crucificado.

                           Chico Pedrosa

sexta-feira, 11 de março de 2011

MATUTO





Matuto eu conheço pelo ajeitado do chapéu
matuto eu conheço pelo carregar do matulão
matuto eu conheço pelo olho que olha pro céu
matuto eu conheço pela pisada do pé no chão

pela fé que ele tem em nosso senhor
pela paz bem guardada no seu coração
pela crença incontida que tem no amor
pelo jeito tão sincero de apertar a mão

todo dinheiro vale menos que o fio do seu bigode
ele fala ‘pro mode’ mas sabe mais do que qualquer doutor
no terreiro do seu peito tem fartura de felicidade
plantação de amizade, colheitas de amor

matuto eu conheço pelo caminho que estradou
matuto eu conheço quando escuta um baião
matuto eu conheço quando canta o fogo-pagou
matuto eu conheço pelo amor que tem pelo sertão

pelo ombro largo sempre a amparar
pela mesa que sempre cabe mais um
pela coragem grande que tem pra lutar
pelo braço forte sem medo nenhum.


                                                                                                          Xico Bizerra

quinta-feira, 10 de março de 2011

Coisas de matuto

Após ouvir o final da narração, Henrique se despede do seu compadre, o vaqueiro  Severiano.
-  Bem, tô chegando, cumpadre. Onde é que tem umas pinhas boas aqui na feira? 
- Tem um cabôco de Mimoso, num banco em frente à bodega de “Seu” Olimpo,  vendendo umas pinhas maduras e acho qui não usou carburêto.
Té mais cumpadre. Lembrança à cumadre e aosmininos. -  Despede-se, Henrique.
Inté, cumpadeQui Nosso Sinhô Jesus Cristo o acompanhe. – Despediu-se o vaqueiro.
Henrique logo avistou o feirante. Era um moreno baixo, troncudo, cara de mameluco, barrigudo, com a camisa toda aberta, deixando à mostra um umbigo do tamanho de uma pitomba.
- E ai freguês as pinhas são boas mesmos? Perguntou Henrique.
- São as mió pinhas da minha terra, seu moço. Eu mermo as pranto e nunca butei veneno oucarburêto nelas. – Respondeu o feirante,  numa voz mansa e bem arrastada.
Henrique, que era bom observador e também gozador, diz, meio sorridente:
- Não sei porque o povo de Mimoso só fala chorando…
O feirante, arrumando as pinhas, sem olhar pro seu interlocutor, responde, num tom mais manso e arrastado:
- E eu num sei pruquê o povo de Aicoverde só fala sinriiiiiindo
Henrique dá uma leve palmada no ombro do feirante, como se já o conhecesse de longas datas, compra meia dúzia de pinhas e vai embora, ouvindo “Moonlight Serenada”, de Glenn Muller e sua orquestraao longe, da difusora instalada na Praça Barão de Rio Branco, e a voz do locutor: “Assista hoje na matinê do Cine Bandeirante, o Gigante da Praça da Bandeira, Tarzan, o Rei da Selva e o terceiro episódio do seriado Os Perigos de Nioka"

                                                                                                                              "RAL"

Logo mais na moita...

Lá no Abacaxi, currutela de uma rua só, a
muitas léguas de Tabuí, era noite de lua cheia.
Tempo fresco e época de colheita.
Todo mundo gente pra lá simples.
Divertimento com aquela lua toda era uma
baita festa ao som duma viola doída,
uma boa sanfoninha reco-reco,
um cavaquinho e um pandeiro.
Cada um arranhando mais que o outro.
Imitando caipiras de fama. Aqueles do rádio.
Cantadores cantavam cantigas apaixonadas,
com olhinhos até fechados,
sonhando com sucesso fácil da cidade grande.
Bem diferente de ter que enfrentar
cabo de guatambu dia-a-dia.  
Festa cada vez mais animada.
Tanto dentro quanto fora do rancho.
De terra batida. Forquilha no meio para segurar
a cobertura de sapê.
Lá fora, só movimento.
Homens e mulheres, cansados de tanto arrastar o
pé e balançar o esqueleto,
tomavam uma branquinha
pra esquentar o peito,
proseando enquanto queimavam um pitinho.
Lua cheia, misturada com noite
fresquinha e pinguinha,
clareava e contribuía para o bom
desenrolar dos proseamentos.
Enquanto isso, no rancho, lotado,
dança corria solta.
Rela-rela pra tudo quanto é canto.
Lá no Abacaxi ninguém cuida da vida do outro.
Sem futricas. Cada um faz o que acha certo,
é respeitado pelo que é e pelo que faz.
Mas num cantinho mais escuro, embora
ninguém nem olhasse,
tinha um casalzinho que garrou a dançar no
comecinho da festa, assim que o sol se pôs,
e não parou mais. Não parou é maneira de dizer.
Porque parados, no meio do rancho,
ficavam tempão danado. Agarradinhos.
Coisa com coisa encostadinha e latejante.
Lá pelas tantas da madrugada,
rancho abarrotado de gente,
contrário do clima lá fora,
calor derretia neguinho.
Até tocadores deixaram de sonhar
e já reclamavam. Sanfoninha espumando,
melecada de suor.
Pandeirinho nem mais respondia à pandeiração.
Só casalzinho tava nem aí.
Dançava e dançava cada vez mais agarradinho,
esfregando as coisas, no bem-bom,
olhinhos até fechados.
Queriam que o mundo acabasse em moita.
Com aquela quentura toda não teve outro jeito.
Rapaz garrou numa suadeira danada.
Molhado dos cabelos da cabeça
até a ponta do dedão do pé grande.
Mocinha também.
Ruge escorria naquele rostinho aveludado.
Vestidinho de chita todo molhado,
grudado no corpo, mostrando formas apetitosas.
Músculos fortes de uma cabrocha do sertão.
Assim meio tonta, resolve falar alguma coisa
para o desejo contido arder menos.
Abre um olhinho... O outro olhinho...
Desgruda a cabecinha do peito do mancebo
e diz pra ele, caprichando e
dobrando a língua nos pronomes:
- Mas você sua, heim?
E o rapaz, sonhando com
o logo mais numa moita, candidamente,
sem nem pensar, responde rapidinho:
- E ieu tamém vô sê seu!!!...

sexta-feira, 4 de março de 2011



No vagão da saudade eu tenho ido
Ver a casa que antes nasci nela
Uma lata de flores na janela
A parede de taipa, o chão varrido
Milho mole esperando ser moído
Numa máquina do veio enferrujado
Que a pesar da preguiça e do enfado
Mãe botava de pouco e eu moía
Vou no trem da saudade todo dia
Visitar o lugar que fui criado

(João Paraibano)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Pinto do Monteiro - Um pouco da sua história...



Pinto do Monteiro por ele mesmo

No dia 11 de abril de 1983, às quatro da tarde, na casa do poeta, em Sertânia, Pinto do Monteiro gravou entrevista — ainda inédita — concedida a Djair de Almeida Freire, acompanhado do cantador Gato Velho.

Eis os principais trechos, transcritos e editados por Maria Alice Amorim:

"Severino Lourenço da Silva Pinto Monteiro, nasci em 1895, a 21 de novembro, a uma da madrugada, assim dizia a velha minha mãe. Batizei-me a hum de janeiro de 1896, pelo Pe. Manuel Ramos, na vila de Monteiro. Nasci na rua, mas morava em Carnaubinha. Com sete anos de idade, em 1903, fui para a fazenda Feijão. Saí de lá em 1916, 30 de junho. Meus avós eram da Itália, quando chegaram por aqui se misturaram com sangue de português. Esse Monteiro é parente dos Brito, eu sou parente dos Brito.

Com Antônio Marinho, eu nunca viajei para canto nenhum. Fiz várias cantorias com ele. Quando eu andava por aqui, cantava com ele. Quando eu morava em Vitória de Santo Antão, ele mudou-se para Caruaru. Eu vim, cantei com ele, levei ele a Vitória. Passou uma semana comigo. Lá, ele não andou mais. Levei ele uma vez ao Recife. Não cantou, adoeceu. Eu cantei muito foi com João da Catingueira, sobrinho de Inácio. Sete anos sem cantar com outro. Com Lino, fiz poucas viagens. Com Joaquim Vitorino, eu viajei mais, mais, e foi muito. Fui para Alagoas, Pernambuco, Recife, Piancó. Cantei com Zé Gustavo, no Arruda. Assis Tenório, eu viajei coisinha pouca, somente aqui, em Afogados. Cantei com ele em Pesqueira, Garanhuns, Caetés. Zé Limeira, eu cantei muitas vezes com ele.

Zé Pretinho, só ouvi falar por aquela história naquele folheto do cego Aderaldo, nunca conheci, acho que não existiu. Cantei com Zé Pretinho, de Caruaru, que era da Serra Velha. Com João Fabrício, que era também da Serra Velha. Com Aristo, também cantei mais ele muitas vezes. Com Laranjinha, muitas vezes. Zé Agostinho, barbeiro, cantei várias vezes. Agostinho Cajá, cantei mais ele muito, viajei mais ele. Cantei mais no Recife. Muito no Derby, no Savoy, na Câmara de Vereadores. Mnorei no Arruda trinta anos, rua das Moças.

Eu sou com Lourival como o gato com o rato. Cantei com ele no dia 5 de fevereiro (1983 — a cantoria mais recente à época), em Monteiro. Tinha Job, Zezé Lulu, João da Piaba, Zequinha, Zé Palmeira, Edésio Vicente, Zé Jabitacá. Tinha somente os de Monteiro e os de São José do Egito. Tinha Zé de Cazuza Nunes, que é grande poeta. Tinha Manuel Filó. Tinha João Furiba, Zé Galdino. Numa noite chuvosa, tinha mais de trezentas pessoas no clube.

Em certo lugar, chamado Boi Velho, chegou Manoel Filó — grande poeta, porém não usava a poesia —, deu um mote a mim e ao que estava cantando comigo: "O carão que cantava em meu baixio / teve medo da seca e foi embora". Cantei:

Se em janeiro não houver trovoada / fevereiro não tem sinal de chuva / não se vê a mudança da saúva / carregando a família da morada / só se ouve do povo é a zuada / pai e mãe, noivo e noiva, genro e nora / homem treme com fome, o filho chora / se arruma e vão tudo para o Rio / O carão que cantava em meu baixio / teve medo da seca e foi embora". 

Hino Nacional Brasileiro

O Hino Nacional brasileiro teve sua primeira execução oficial no dia 13 de abril de 1831 no Largo do Passo, hoje, Praça da Republica, no Rio de Janeiro.

Seu reconhecimento oficial foi através de uma proposição de Coelho Neto, em 1909, na câmara dos Deputados, que somente foi concretizada e oficializada em 1922 pelo Presidente da República, o Paraibano Epitácio Pessoa.

O Hino Nacional, “nasceu” em momentos dramáticos, no calor das agitações populares de nossa história. Francisco Manoel Silva, em 1822, criou a música para saudar a emancipação do País, que se tornou uma Pátria livre. Era executado sem ter a letra. Somente em 1909, ou seja, 98 anos depois, recebeu a letra definitiva, pois os versos apresentados anteriormente não eram compatíveis com serenidade e sim com ressentimentos, com insultos ou bajulação aos portugueses. Finalmente em concurso, venceu a composição de Joaquim Osório Duque Estrada, que é a que cantamos atualmente.