sábado, 26 de março de 2011

Tem rapariga aí?


"Tem rapariga aí? Se tem, levante a mão!"
A maioria das moças, levanta a mão.



Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas bandas do gênero).

As outras são ‘gaia’, ‘cabaré’, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam).


Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade. Pra uma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas.

Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá:

Calcinha no chão (Caviar com Rapadura),
Zé Priquito (Duquinha),
Fiel à putaria (Felipão Forró Moral),
Chefe do puteiro (Aviões do forró),
Mulher roleira (Saia Rodada),
Mulher roleira a resposta (Forró Real),
Chico Rola (Bonde do Forró),
Banho de língua (Solteirões do Forró),
Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal),
Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada),
Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca),
Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró),
Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró).

Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas. Porém o culpado desta ‘desculhambação’ não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo.

O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental.

As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de ‘forró’, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde.

Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamour, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

Aqui o que se autodenomina ‘forró estilizado’ continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem ‘rapariga na platéia’, alguma coisa está fora de ordem.

Quando canta uma canção (canção?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é: ‘É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!’, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.

Um texto de
 Ariano Suassuna
Caricatura:
 Baptistão

Seu Lunga - Tolerância zero (Por Ismael Gaião)

Eu vou falar de Seu Lunga
Um cabra muito sincero,
Que não tolera burrice
Nem gosta de lero-lero.
Tem sempre boas maneiras,
Mas se perguntam besteiras,
Sua tolerância é zero!            
Ao entrar num restaurante
Logo depois de sentar,
Um garçom lhe perguntou:
O Senhor vai almoçar?
Lunga disse: não Senhor!
Chame o padre, por favor,
Vim aqui me confessar.         
Lunga tava na parada
Com Renata perto dele.
Esse ônibus vai pra praia?
Ela perguntou a ele.
Ele, então, disse à mulher:
- Só se a Senhora tiver
Um biquini que dê nele!
Seu Lunga tava pescando
E alguém lhe perguntou:
- Você gosta de pescar?
Ele logo retrucou:
- Como você pode ver,
Eu vim pescar sem querer,
A polícia me obrigou.  
Pagando contas no Banco
Lunga viveu um dilema
Pois com um talão nas mãos,
Ouviu de Pedro Jurema:
O Senhor vai usar cheque?
- Ele disse: não, moleque,
Vou escrever um poema.
      
Em sua sucataria
Alguém tava escolhendo,
- Por quanto o Senhor me dá,
Essa lata com remendo?
Lunga, sem pestanejar,
Disse: não posso lhe dar,
Porque eu estou vendendo.
E ainda muito irritado
A seu freguês respondeu:
Tudo que eu tenho aqui,
Eu vendo porque é meu.
Pois se o Senhor quiser ver,
Coisas sem ser pra vender,
Vá visitar um museu.
Lunga foi comprar sapato
Na loja de Barnabé
E um rapaz bem gentil
Perguntou: é pra seu pé?
Ele disse: não esqueça,
Bote na minha cabeça,
Vou usar como boné.               
Lunga carregava leite
Numa garrafa tampada
E um velho lhe perguntou:
Bebe leite, camarada?
Ele disse: bebo não!
Depois derramou no chão.
- Eu vou lavar a calçada.       
Seu Lunga tava deitado
Na cama, sem se mexer.
E um amigo idiota
Perguntou, a lhe bater:
- O senhor está dormindo?
Lunga disse: tô fingindo
E treinando pra morrer!          
Seu Lunga foi a um banco
Com um cheque pra trocar
Um caixa muito imbecil
Achou de lhe perguntar:
O Senhor quer em dinheiro?
- Não quero não, companheiro,
Quero em bolas de bilhar.      
Lunga olhou pro relógio
Na frente de Gabriela,
Quando menos esperava,
Ouviu a pergunta dela:
- Lunga viu que horas são?
Ele disse: não, vi não,
Olhei pra ver a novela!             
Seu Lunga comprava esporas
Para correr argolinha
E o vendedor idiota
Fez essa perguntazinha:
- É pra usar no cavalo?
- É não, eu uso no galo,
Monto e dou uma voltinha.    
Seu Lunga tava pescando
Quando chegou Viriato
- Perguntando: aqui dá peixe?
Lunga disse: isso é boato!
No rio só dá tatu,
Paca, cutia e teju,
Peixe dá dentro do mato.       
Lunga foi se consultar
Com um Doutor que era Crente
Esse logo perguntou:
- O Senhor está doente?
- Lunga disse: não Senhor,
Vim convidar o Doutor,
Para tomar aguardente.
Seu Lunga, com seu cachorro,
Saiu para caminhar
E um besta lhe perguntou:
É seu cão, vai passear?
Lunga sofreu um abalo,
Disse: não, é um cavalo,
Vou levá-lo pra montar.         
Lunga trazia da feira,
Já em ponto de tratar,
Uma cabeça de porco,
Quando ouviu alguém falar:
- Vai levando pra comer?
Ele só fez responder:
- Vou levando pra criar!           
Lunga foi à eletrônica
Com um som pra consertar
Lá ouviu um  idiota
Sem demora, perguntar:
- O seu som está quebrado?
- Tá não, está estressado.
Eu trouxe pra passear. 
Seu Lunga foi numa loja
Lá perto de Itaqui
- Tem veneno pra rato?
- Temos o melhor daqui.
Vai levá-lo? Está barato.
- Vou não, vou buscar o rato
Para vim comer aqui!    
Seu Lunga tava bebendo,
Quando escutou de Tião:
- Já que faltou energia,
Nós vamos fechar irmão!
Lunga falou: que desgraça!
Eu vim pra tomar cachaça,
Não foi tomar choque não!
Lunga tava em sua loja
Numa preguiça profunda
Quando escutou a pergunta
Vindo de Dona Raimunda:
- O Senhor tem meia-calça?
- Isso em você não realça,
Ou você, tem meia bunda?      
Lunga saiu pra pescar,
Quando um amigo encontrou.
Depois de cumprimentá-lo
Seu amigo perguntou:
Lunga vai à pescaria?
Seu Lunga só disse: ia.
Pegou a vara e quebrou.         
Jacó estava querendo
Apostar numa milhar
Vendo Lunga numa banca
Disse: agora vou jogar!
E foi gritando dali:
- Lunga, passa bicho aqui?
- Passa sim! Pode passar.       
Seu Lunga sentia dor
Procurou Doutor Ramon
Que começou a consulta
Já perguntando em bom tom:
Seu Lunga, qual o seu plano?
Lunga disse: sem engano,
O meu plano é ficar bom!          
Lunga tava em seu comércio
Despachando a Zé Lulu
Que depois de escolher
A fava e o feijão guandu.
- Disse: vou levar fubá.
E o arroz como está?
Seu Lunga disse: Tá cru!      
Lunga com uma galinha
E a faca pra cortar,
Seu vizinho perguntou:
Oh! Seu Lunga, vai matar?
Com essa pergunta burra,
Disse: não, vou dar uma surra,
Logo depois vou soltar.          
Lunga indo a um enterro
Encontrou Zeca Passivo
- Seu Lunga pra onde vai?
Ao enterro de Biu Ivo.
- E Seu Biu Ivo morreu?
- Não, isso é engano seu,
Vão enterrar ele vivo!               
Lunga mostrou um relógio
Ao filho de Biu Romão
- Posso botar dentro d’água?
Perguntou o garotão.
Lunga disse sem demora:
- Relógio é pra ver a hora,
Não é sabonete, não!
Lunga fez uma viagem
Pra cidade de Belém
E quando voltou pra casa
Escutou essa de alguém:
- Oh! Seu Lunga, já chegou?
- Eu não, você se enganou,
Chego semana que vem!         
Lunga levou uma queda
De cima de seu balcão
- Quer tomar um pouco d’água?
Perguntou o seu irmão.
Lunga logo, respondeu:
Foi só uma queda, meu!
Eu não comi doce não!           
Na porta do elevador
Esperando ele chegar
Seu Lunga escutou um besta
Pro seu lado perguntar:
- Vai subir nesse momento?
- Não, que meu apartamento,
Vai descer pra me pegar.         
Se encontrar com Seu Lunga
Converse, mas com cuidado,
Pois ele pode ser grosso,
Mesmo sendo educado.
Eu já fiz o meu papel,
Escrevendo este cordel
Pra você ficar ligado!



http://www.luizberto.com/coluna/colcha-de-retalhos-ismael-gaiao

BIBIA DE JOÃO BRAZ


Passei déis ano casado
Com Bibia de João Braz
Acochado muito mais
Do que cobra de viado
Nunca tivemo um danado
Nunca quizemo brigá
Jurei nunca laigá
Pro fim, fiquei sem muié
Que muié e cascavé
So pega sem avisá

Eu andando um certo dia
Lá pras banda de Assaré
Cheguei em casa de pé
Cacei, num achei Bibia
Preguntei a minha tia
— Cadê a minha criôla ?
A véia matuta e tola
Me dixe escorando a fonte
Bibia fugiu antonte
Cum "seu"Raimundo Carrôla

Eu dixe será possive
Bibia fez deu boi?
A véia dixe: — mai foi!
Fez um papé muito horrive
Só do desgosto que tive
O mundo ficou azul
O norte passou pro sul
Senti uma coisa choca
Que me deu uma frivioca
Do gogó pro mucumbú

Fui à mala que nós tinha
Coberta com uma estopa
Fui procurá nossa roupa
Quase caí na camarinha
Achei toda a roupa minha
Mas fartava a de Bibia
Minhas roupa sem as dela
Só se parece eu sem ela
Na cama que nóis drumia

Um parpite me bateu
Fui à outra maletinha
Inda achei a cuequinha
Dela tumá banho mais eu
Num era mais pareceu
Cum ela quando vestia
Aí, não, quase eu morria!
Pinotei pelo terreiro
Inda dei catorze cheiro
Na cueca de Bibia

Ainda fui na cancela
Da nossa roça pequena
Vi a jumenta morena
Que nóis botava água nela
Aí rescordei mais ela
Das água que nós trazia
Me deu uma agonia
Uma coisa tão nojenta
Ainda bejei a jumenta
Pensando que era Bibia

Eu padeço todo dia
É tão grande o meu martrato
Quando vô cumê um prato
Sobra o prato de Bibia
Na cama é uma agonia
Quando tem eu farta ela
Até a rede amarela
Tá pensa que tá danada
Cum eu na minha berada
Sabrando a berada dela

Pro caso dum vagabundo
Tô numa vida medonha
E aquela sem-vergonha
Sendo ruim no meio do mundo
Ai, meu Deus! Se "seu"Raimundo
Tomasse ódio de Bibia
E ela vortasse um dia
Nem que lascasse o meu nome
Do jeito que eu tô cum fome
Se ela vortasse, eu queria.

Poeta Louro Branco


                                           Post dedicado à "Seu Eliseu" (Quem o conhece sabe do que se tratra) Ôhh véio que eu amo!!

quinta-feira, 24 de março de 2011

FOGO CORREDOR




Das muitas lendas que correm por esse sertão a fora, essa é uma das minhas preferidas. Lembro quando na minha infância, eu, minhas irmãs e meus muitos primos que nem dá pra contar nos dedos, ficávamos sentados na calçada da casa da minha avó, à noite, quando a energia elétrica ainda nem havia chegado por lá, pra ouvir as histórias que meu avô contava.
Meu avô sentava-se na sua cadeira de balanço, recostado na sua almofada e começava a falar de coisas que a nós, pareciam tão reais, tão assustadoras e ao mesmo tempo tão fascinantes; lembro-me que certo dia, enquanto estávamos todos deitados na calçada, olhando o céu estrelado e falando as besteiras que toda criança fala, meu avô, do alto do seu conhecimento e idade, pois já devia ter mais de 60 na época (avô sempre tem mais de 60) proferiu as seguintes palavras:
“Hoje o céu tá como naqueles dias em que aparecia o fogo corredor”
Na mesma hora o silêncio reinou entre os moleques e a curiosidade acompanhada do medo, tomou conta de todos nós. Todos nós queríamos saber o que era esse tal de “fogo corredor”.
Meu avô disse que nos tempos em que não existiam carros, energia elétrica e nem mesmo os lampiões haviam chegado aos remotos recantos do sertão pernambucano, as pessoas, sem TV ou qualquer outra coisa que lhes distraísse a noite, sentavam-se sempre nos terreiros e calçadas pra lorotar e jogar conversa fora; fumar um cigarro de palha, planejar o plantio, a colheita ou a broca (queima do roçado)... As crianças brincavam de roda e as mulheres cantarolavam modas e preparavam a janta. Enquanto a prosa rolava entre os senhores, sempre tinha aquela pausa, aquele diálogo monossilábico, em que todos olhavam pro infinito e um ou outro falava:
Éeeee!!
Outro:
Ai ai!
Outro:
Hum rum!!
E assim a conversa seguia, sem grandes novidades, vez ou outra uma cuspida, que não sei como, voava a uns 10 metros de distância, uma temperada na garganta, uma batucada com os dedos (matuto adora isso). E eis q em meio a tanto sossego, surgia no céu, meio que de repente, uma bola de fogo, um clarão que corria o céu e que não era possível identificar do que se tratava, de onde surgira e pra onde iria. A conversa parava, os meninos corriam pras saias das mães e todo mundo ficava estático observando aquele estranho fenômeno, que da mesma forma que surgia, desaparecia, por entre os galhos dos altos pés de aveloz... Sumia como se nada tivesse acontecido.
E tudo voltava ao que era antes... Afinal, no sertão, nada é fora do comum e tudo é história!!!

terça-feira, 22 de março de 2011

Vaca voa????




Não?

?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
?
Tem certeza?
?
?
?
?
?
?

Então me explica como essa foi parar aí 
no telhado, homi?



MATUTO CONQUISTADOR



 Desculpem-me a ausência pessoas do meu Brasil varonil...É que o trabalho às vezes me consome (quase sempre, eu diria) e não me permite passear pelo mundo virtual, nem no real. Querem um conselho?? Nunca trabalhem com contabilidade. Aliás, quem souber de um bom emprego entrar em contato, mas digo logo, só se eu não precisar trabalhar tá?!!? 
 Pra retornar com meus posts, aí vai uma poesia de minha autoria, se for ruim por favor não comentem, vou logo avisando...E se comentarem, sejam falsos, digam que está linda e perfeita ok??


                                                                                                                            Um xêro!!


 MATUTO CONQUISTADOR

Há quem fale que matuto
É cabra esperto e amigo, 
Pois eu tenho cá comigo
Que além de muito astuto
Tem coisa até de magia
Pois lhe digo que outro dia
Vi um senhor meio enxuto
Que tentava a todo custo
Conquistar uma Maria
Quando avistei a peleja
Ele querendo, ela correndo,
E já quase escurecendo
Naquele beija e num beija
De repente o tal matuto
Desandou a pinotar
Maria achou um insulto
Pôs-se logo a esculhambar
E o véio com aquela dança
Eu pensei: é catimbó
Parecia pajelança
O veio lá num pé só
Continuava a festança
Pois num é que a Maria
Num sei como aconteceu
Nessa hora já sorria
Já até admitia
Um cheiro que o veio deu
Quando vi, lá tava os dois,
Num agarradi danado
Só pensando no depois
Logo mais no reservado
O fato é que esse matuto
Dançarino ou macumbeiro
Por dentro de dez minutos
Que seja dito primeiro
Conseguiu, nem se esforçou,
Conquistar sua Maria
Que todo mundo queria
Mas só o matuto levou.

                                                                    Adriane Freire 

segunda-feira, 14 de março de 2011

14 DE MARÇO - DIA DA POESIA











HORAS DE SAUDADE

Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.

No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minh'alma — o ninho!

Por onde trilhas — um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...

                                          Castro Alves




POESIA...

A palavra "poesia" tem origem grega e significa "criação". É definida como a arte de escrever em versos, com o poder de modificar a realidade, segundo a percepção do artista.

Antigamente, os poemas eram cantados, acompanhados pela lira, um instrumento musical muito comum na Grécia antiga. Por isso, diz-se que a poesia pertence ao gênero lírico. Hoje, os poemas podem ser divididos em quatro gêneros: épico, didático, dramático e lírico.
As linhas de um poema são os versos. O conjunto desses versos chama-se "estrofe". Os versos podem rimar entre si e obedecer à determinada métrica, que é a contagem das sílabas poéticas de um verso. Os versos mais tradicionais são as redondilhas; a redondilha menor tem cinco sílabas, e a maior com sete; os versos decassílabos, dez; os alexandrinos, doze.
A rima é um recurso que confere musicalidade aos versos, baseando-se na semelhança sonora das palavras do final ou, às vezes, do interior dos versos. Rima, ritmo e métrica são características especiais de um poema e que podem variar, dependendo do movimento literário da época.
No Brasil, os primeiros poemas surgiram junto com o seu descobrimento, pois os jesuítas usavam versos para catequizar os índios.
Depois, surgiram outras formas de poesia, como o barroco (1601-1768), o arcadismo (1768-1836), o romantismo (1836-1870), o parnasianismo (1880-1893), o simbolismo (1893-1902), o pré- modernismo (1902-1922), o Modernismo (1922-1962), até a forma de hoje.
O Dia Nacional da Poesia é comemorado em homenagem ao nascimento de Castro Alves, em 14 de março de 1847. Poeta do romantismo, ele foi um dos maiores nomes da poesia brasileira. Suas obras que mais se destacaram foram: Os escravos (no qual há o seu famoso poema Navio Negreiro) e Espumas flutuantes, cujas características principais são a valorização do amor e a luta por liberdade e justiça. Há outros nomes importantes da poesia brasileira: Alberto de Oliveira, Gonçalves Dias, Raimundo Correia, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e muitos outros.



E hoje, dia 14 de Março de 2011 é também o aniversário do nosso grande poeta Chico Pedrosa, que com sua simplicidade e genialidade, é quem sempre nos presenteia com tesouros como este que segue:

Briga na Procissão

Quando Palmeira das Antas
Pertencia ao Capitão
Bento Justino da Cruz
Nunca faltou diversão:
Vaquejada, cantoria,
Procissão e romaria,
Sexta-feira da paixão.
Na quinta-feira maior,
Dona Maria das Dores
No salão paroquial
Reunia os moradores
E ao lado do Capitão
Fazia a seleção
De atrizes e atores
O papel de cada um
O Capitão que escolhia
A roupa e a maquilagem
Eram com Dona Maria
O resto era discutido,
Aprovado e resolvido
Na sala da sacristia.
Todo ano era um Jesus,
Um Caifaz e um Pilatos
Só não faltavam a cruz,
O verdugo e os maus-tratos
O Cristo daquele ano
Foi o Quincas Beija-Flor
Caifaz foi Cipriano,
Pilatos foi Nicanor.
Duas cordas paralelas
Separavam a multidão
Pra que pudesse entre elas
Caminhar a procissão
Cristo conduzindo a cruz
Foi não foi advertia
Pro centurião perverso
Que com força lhe batia.
Era pra bater maneiro
Mas ele não entendia
Devido a um grande pifão
Que bebeu naquele dia
Do vinho que o capelão
Guardava na sacristia.
Cristo dizia: ôh, rapaz,
vê se bate devagar!
Já estou todo encalombado,
assim não vou aguentar,
tá com a gota pra doer,
ou tu pára de bater
ou a gente vai brigar!
O pior é que o malvado
Fingia que não ouvia
E além de bater com força
Ainda se divertia,
Espiava pra Jesus
Fazia pouco e dizia:
Que Cristo frouxo é você,
que chora na procissão?
Jesus pelo que eu saiba
não era mole assim não.
Eu tô batendo com pena,
tu vai ver o que é bom
na subida da ladeira
da venda de Fenelon.
O couro vai ser dobrado
daqui até o mercado
a cuíca muda o som!
Naquele momento ouviu-se
Um grito na multidão
Era Quincas que com raiva
Sacudia a cruz no chão
E partia feito um maluco
Pra cima de Bastião
Se travaram no tabefe,
Ponta-pé e cabeçada.
Madalena levou queda,
Pilatos levou pancada
Deram um bofete em Caifaz
Que
até hoje não faz
Nem sente gosto de nada.
Desmancharam a procissão,
O cacete foi pesado.
São Tomé levou um tranco
Que ficou desacordado
Deram um cocorote
Na careca de Timóti
Que até hoje é aluado.
Até mesmo São José,
Que não é de confusão
Na ânsia de defender
O filho de criação
Aproveitou a garapa
Pra dar um monte de tapa
Na cara do bom ladrão.
A briga só terminou
Quando o Doutor Delegado,
Interviu e separou:
Cada Santo pro seu lado!
E desde que o mundo se fez,
Foi essa a primeira vez
Que Cristo foi pro xadrez,
Mas não foi crucificado.

                           Chico Pedrosa