quinta-feira, 10 de março de 2011

Logo mais na moita...

Lá no Abacaxi, currutela de uma rua só, a
muitas léguas de Tabuí, era noite de lua cheia.
Tempo fresco e época de colheita.
Todo mundo gente pra lá simples.
Divertimento com aquela lua toda era uma
baita festa ao som duma viola doída,
uma boa sanfoninha reco-reco,
um cavaquinho e um pandeiro.
Cada um arranhando mais que o outro.
Imitando caipiras de fama. Aqueles do rádio.
Cantadores cantavam cantigas apaixonadas,
com olhinhos até fechados,
sonhando com sucesso fácil da cidade grande.
Bem diferente de ter que enfrentar
cabo de guatambu dia-a-dia.  
Festa cada vez mais animada.
Tanto dentro quanto fora do rancho.
De terra batida. Forquilha no meio para segurar
a cobertura de sapê.
Lá fora, só movimento.
Homens e mulheres, cansados de tanto arrastar o
pé e balançar o esqueleto,
tomavam uma branquinha
pra esquentar o peito,
proseando enquanto queimavam um pitinho.
Lua cheia, misturada com noite
fresquinha e pinguinha,
clareava e contribuía para o bom
desenrolar dos proseamentos.
Enquanto isso, no rancho, lotado,
dança corria solta.
Rela-rela pra tudo quanto é canto.
Lá no Abacaxi ninguém cuida da vida do outro.
Sem futricas. Cada um faz o que acha certo,
é respeitado pelo que é e pelo que faz.
Mas num cantinho mais escuro, embora
ninguém nem olhasse,
tinha um casalzinho que garrou a dançar no
comecinho da festa, assim que o sol se pôs,
e não parou mais. Não parou é maneira de dizer.
Porque parados, no meio do rancho,
ficavam tempão danado. Agarradinhos.
Coisa com coisa encostadinha e latejante.
Lá pelas tantas da madrugada,
rancho abarrotado de gente,
contrário do clima lá fora,
calor derretia neguinho.
Até tocadores deixaram de sonhar
e já reclamavam. Sanfoninha espumando,
melecada de suor.
Pandeirinho nem mais respondia à pandeiração.
Só casalzinho tava nem aí.
Dançava e dançava cada vez mais agarradinho,
esfregando as coisas, no bem-bom,
olhinhos até fechados.
Queriam que o mundo acabasse em moita.
Com aquela quentura toda não teve outro jeito.
Rapaz garrou numa suadeira danada.
Molhado dos cabelos da cabeça
até a ponta do dedão do pé grande.
Mocinha também.
Ruge escorria naquele rostinho aveludado.
Vestidinho de chita todo molhado,
grudado no corpo, mostrando formas apetitosas.
Músculos fortes de uma cabrocha do sertão.
Assim meio tonta, resolve falar alguma coisa
para o desejo contido arder menos.
Abre um olhinho... O outro olhinho...
Desgruda a cabecinha do peito do mancebo
e diz pra ele, caprichando e
dobrando a língua nos pronomes:
- Mas você sua, heim?
E o rapaz, sonhando com
o logo mais numa moita, candidamente,
sem nem pensar, responde rapidinho:
- E ieu tamém vô sê seu!!!...

sexta-feira, 4 de março de 2011



No vagão da saudade eu tenho ido
Ver a casa que antes nasci nela
Uma lata de flores na janela
A parede de taipa, o chão varrido
Milho mole esperando ser moído
Numa máquina do veio enferrujado
Que a pesar da preguiça e do enfado
Mãe botava de pouco e eu moía
Vou no trem da saudade todo dia
Visitar o lugar que fui criado

(João Paraibano)

quinta-feira, 3 de março de 2011

Pinto do Monteiro - Um pouco da sua história...



Pinto do Monteiro por ele mesmo

No dia 11 de abril de 1983, às quatro da tarde, na casa do poeta, em Sertânia, Pinto do Monteiro gravou entrevista — ainda inédita — concedida a Djair de Almeida Freire, acompanhado do cantador Gato Velho.

Eis os principais trechos, transcritos e editados por Maria Alice Amorim:

"Severino Lourenço da Silva Pinto Monteiro, nasci em 1895, a 21 de novembro, a uma da madrugada, assim dizia a velha minha mãe. Batizei-me a hum de janeiro de 1896, pelo Pe. Manuel Ramos, na vila de Monteiro. Nasci na rua, mas morava em Carnaubinha. Com sete anos de idade, em 1903, fui para a fazenda Feijão. Saí de lá em 1916, 30 de junho. Meus avós eram da Itália, quando chegaram por aqui se misturaram com sangue de português. Esse Monteiro é parente dos Brito, eu sou parente dos Brito.

Com Antônio Marinho, eu nunca viajei para canto nenhum. Fiz várias cantorias com ele. Quando eu andava por aqui, cantava com ele. Quando eu morava em Vitória de Santo Antão, ele mudou-se para Caruaru. Eu vim, cantei com ele, levei ele a Vitória. Passou uma semana comigo. Lá, ele não andou mais. Levei ele uma vez ao Recife. Não cantou, adoeceu. Eu cantei muito foi com João da Catingueira, sobrinho de Inácio. Sete anos sem cantar com outro. Com Lino, fiz poucas viagens. Com Joaquim Vitorino, eu viajei mais, mais, e foi muito. Fui para Alagoas, Pernambuco, Recife, Piancó. Cantei com Zé Gustavo, no Arruda. Assis Tenório, eu viajei coisinha pouca, somente aqui, em Afogados. Cantei com ele em Pesqueira, Garanhuns, Caetés. Zé Limeira, eu cantei muitas vezes com ele.

Zé Pretinho, só ouvi falar por aquela história naquele folheto do cego Aderaldo, nunca conheci, acho que não existiu. Cantei com Zé Pretinho, de Caruaru, que era da Serra Velha. Com João Fabrício, que era também da Serra Velha. Com Aristo, também cantei mais ele muitas vezes. Com Laranjinha, muitas vezes. Zé Agostinho, barbeiro, cantei várias vezes. Agostinho Cajá, cantei mais ele muito, viajei mais ele. Cantei mais no Recife. Muito no Derby, no Savoy, na Câmara de Vereadores. Mnorei no Arruda trinta anos, rua das Moças.

Eu sou com Lourival como o gato com o rato. Cantei com ele no dia 5 de fevereiro (1983 — a cantoria mais recente à época), em Monteiro. Tinha Job, Zezé Lulu, João da Piaba, Zequinha, Zé Palmeira, Edésio Vicente, Zé Jabitacá. Tinha somente os de Monteiro e os de São José do Egito. Tinha Zé de Cazuza Nunes, que é grande poeta. Tinha Manuel Filó. Tinha João Furiba, Zé Galdino. Numa noite chuvosa, tinha mais de trezentas pessoas no clube.

Em certo lugar, chamado Boi Velho, chegou Manoel Filó — grande poeta, porém não usava a poesia —, deu um mote a mim e ao que estava cantando comigo: "O carão que cantava em meu baixio / teve medo da seca e foi embora". Cantei:

Se em janeiro não houver trovoada / fevereiro não tem sinal de chuva / não se vê a mudança da saúva / carregando a família da morada / só se ouve do povo é a zuada / pai e mãe, noivo e noiva, genro e nora / homem treme com fome, o filho chora / se arruma e vão tudo para o Rio / O carão que cantava em meu baixio / teve medo da seca e foi embora". 

Hino Nacional Brasileiro

O Hino Nacional brasileiro teve sua primeira execução oficial no dia 13 de abril de 1831 no Largo do Passo, hoje, Praça da Republica, no Rio de Janeiro.

Seu reconhecimento oficial foi através de uma proposição de Coelho Neto, em 1909, na câmara dos Deputados, que somente foi concretizada e oficializada em 1922 pelo Presidente da República, o Paraibano Epitácio Pessoa.

O Hino Nacional, “nasceu” em momentos dramáticos, no calor das agitações populares de nossa história. Francisco Manoel Silva, em 1822, criou a música para saudar a emancipação do País, que se tornou uma Pátria livre. Era executado sem ter a letra. Somente em 1909, ou seja, 98 anos depois, recebeu a letra definitiva, pois os versos apresentados anteriormente não eram compatíveis com serenidade e sim com ressentimentos, com insultos ou bajulação aos portugueses. Finalmente em concurso, venceu a composição de Joaquim Osório Duque Estrada, que é a que cantamos atualmente.

quarta-feira, 2 de março de 2011






Minha corda não se estica
não se tora nem se enverga
da terra pro firmamento
meu pensamento se alberga
em um lugar tão distante
que lente nenhuma enxerga.




Pinto do Monteiro

terça-feira, 1 de março de 2011

O ERRO DA VENDEDORA



O engano é uma falha
Difícil de reverter
Por ele tem muita gente
Pagando sem merecer
Quantos pobres inocentes
Tidos como delinquentes
Vivem a se lastimar
Pois se errar fosse humano
Quem cometesse um engano
Não deveria pagar.

Um estudante entrou numa
Loja especializada
Para comprar um presente
Para a sua namorada
Que estava noutra cidade
Depois de olhar à vontade
Os produtos da vitrine
Despertou-lhe o interesse
Por algo que aquecesse
Os dedos da mão de Aline

E um belíssimo par de luvas
Comprou para a namorada
E pediu a vendedora
Moça fina e educada
Que embalasse o presente
Inadivertidamente
No lugar da encomenda
A moça se atrapalhou
Invés das luvas botou
Uma calcinha de renda

E entregou para o moço
Que acabara de escrever
Um bilhete à namorada
Dizendo como fazer
Com aquele presentaço:
Minha querida um abraço
E beijos apaixonados
Meu amor esse presente
Vista pensando na gente
No dia dos namorados

Lhe comprei, porém, sabendo
Que você não vai usar
Porque quem nunca vestiu
É difícil acostumar
Eu mesmo queria ir
Pra lhe ajudar a vestir
Como eu fiz com a vendedora
E se nela eu gostei de ver
Eu imagino em você
Minha deusa encantadora!

Ela ainda garantiu
Que não mancha nem desbota
A mão entrando e saindo
Não rasga nem amarrota
Eu comprei frouxa na frente
Pra mão descer livremente
Na bainha dos torpedos
E sem precisar cortar
Lá dentro facilitar
O movimento dos dedos

Torço para que te sintas
Feliz com este presente
Que irá cobrir aquilo
Que pedirei brevemente
Cobrir aquilo que um dia
Quando eu não te conhecia
Não podia nem tocar
Hoje pego, beijo amasso,
Coço, massageio e faço
Você gemer e sonhar

Só uma coisa lhe peço
Depois que você usar
Coloque um pouco de talco
Que é pra desinfectar
E pra sair o mal cheiro
Feito isso o tempo inteiro
Pode usar e se exibir
Se perguntarem que deu
Pode dizer que fui eu:
Seu namorado Valdir

A pobre moça tomou
Aquilo por gozação
Num instante veio abaixo
Seu castelo de paixão
Despachou o namorado
Que até hoje o coitado
A culpa imerecedora
Carrega sem entender
E assim pagou sem dever
O ERRO DA VENDEDORA!

(Chico Pedrosa)


Post dedicado à minha amiga Aline (vulgo: Garrafinha) heheh

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ismola Pra São José

           
Tem certas coisa, Seu Môço, 
Que eu não gosto muito não. 
Pur inzêmplo: 
Ôvi contá história de operação, 
De arracamento de dente, 
Ôvi história de briga... 
Eu posso inté escuitá, 
Mai me dá uma fadiga! 

E ôta coisa, Seu Môço, 
Que, de bom gosto, eu nun faço: 
É dá ismola a quem pede, 
Cum Santo dibaxo do braço! 
Pruquê eu acho que o Santo 
Nun tem muita precisão. 
Afinár, eu nunca vi 
Um Santo comê feijão! 

Mais, pru má dos meus pecado, 
Ou, pru minha pouca fé, 
Tudo dia, lá em casa, 
Passa um veínho, andano a pé. 
Pru sinal, muito filiz, 
Cantarolano, e tal, 
Chega na minha porta, 
Bate palma e diz: 
- Ismola pa São Jusé!... 

O diabo da muié, 
Que é muito curvitêra, 
- Eu nunca vi uma muié, 
Qui nun fosse rezadêra! - 
Adiquére um tanto quanto, 
Corre e vai dá lá pro Santo. 
Qué dizê, pro santo, 
Pro véio fazê a fera! 

De manhã, logo cedin, 
Eu vou tomá meu café, 
Quando dô fé, ó o grito: 
-- Ismola pa São Jusé!... 
-- Ôooo!... 
Mais isso foi me encheno o saco, 
Mais me encheno pru dimais! 
Um dia, cheguei em casa, 
Cum a barguía da carça virada pa tráis, 

Sentei num tôco de pau, 
Tumei uma de rapé, 
Quando, de repente, ouvi o grito: 
--Ismola pa São Jusé!... 
Pra móde dá a ismola, 
A muié se arremecheu. 
Eu fui e gritei: -- Num vá não! Dêxa! 
Hoje, quem vai dá essa esmola sô eu! 

Quando eu cheguei na porta, 
O velho teve um espanto. 
Eu fui e disse: 
-- Vá trabaiá, vagabundo! 
Qui eu num dô ismola pra santo! 
Troque o santo numa enxada! 
Dêxa de ser preguiçoso! 
Santo num carece de esmola, rapaiz, 
Dêxa de ser... mintiroso!... 

O véio me oiô, e me disse: 
-- Que São José te perdoe! 
E, se Deus tivé te ouvino, 
Que Ele te abençoe! 
E que cubra tua casa de Paiz, Amô, 
União, Sussêgo, Prosperidade, 
Confôrto e Cumpriensão! 
E, se um dia o sinhô pricisá 
desse veinho, 
Ele não mora tão perto, 
Mai eu lhe insino o caminho: 

Mora no sítio Cauã, 
Onde já viveu meu pai, 
À direita de quem vem, 
À esquerda de quem vai! 
E, se um dia o sinhô passá 
Pur ali, com pricisão, 
De fome o sinhô num morre, 
Tomém num drome no chão! 

Quando o Véio disse aquilo, 
Eu senti, naquele instante, 
Como seu eu fosse uma... 
Uma frumiga, 
Sob os pé de dum elefante!... 
Fiquei com as perna tremeno! 
Digo e num peço segrêdo: 
Óia, aquele véio me deu ma surra, 
Sem me tocá com um dedo!... 

Eu, com tanta ignorança! 
Ele, tanta mansidão! 
Fêiz eu pagá muito caro, 
Minha farta de cumpriensão! 

Então, naquele momento, 
Eu gritei pra Salomé, 
Mandei trazê, pro Veinho, 
Uma boa xícara de café, 
E fui, correno, contá meu dinheiro: 
Tinha somento um cruzêro! 
Dei tudin pra São José!!! 





  Autor: Zé Laurentino